Evasão


(...)

Mas eu não tenho mais dez nem doze, tenho quase vinte e dois. E já não tenho os mesmos conceitos. Cresci. Minhas palavras já pousaram em terra firme. As fantasias se tornaram sonhos almejados. Objetos de afeto. O delírio da adolescência já não se faz em mim. A euforia sem medida. Hoje eu sou moça feita. Noiva quase esposa. Sou mais miudeza do que desperdício. Sou mais o pensar do que o falar entorpecido. Hoje eu sou calma, sou paz, sou cabeça nas nuvens e pés no chão. Eu não tenho mais a vaga ideia de menina que o mundo é logo ali. Eu conheço os caminhos e atalhos. Sei que errar é muito mais fácil que acertar. Conheci o lado oculto da lua. Conheci também o lado oculto de ser humano. Sei das possibilidades. Sei sobre sentimentos. Sei um pouco de tudo que já vi, li, ouvi e observei. Não sou mais uma menina qualquer brincando de ser Cinderela com vestido de lençol e sapatos da mãe. Não sou mais aquela menina querendo ser a  protagonista do filme da Sessão da Tarde. Hoje se me perguntassem quem eu gostaria de ser, eu diria que me contento em ser eu mesma. E se eu pudesse escolher ser qualquer pessoa no mundo, ainda assim escolheria ser eu mesma. Não que eu seja grande coisa (o que não sou mesmo!), mas é que eu entendi o que eu sou e aceitei tudo o que faz parte de mim.
Eu descobri que tenho dores, partes feias e meus desejos de fuga.
Não sou perfeita.
Mas gosto de mim.
Gosto dos sonhos que fazem borboletear meu estômago.
Eu gosto do meu coração desarmado, despido, sempre tentando ser amor completo.
Gosto da ideia de envelhecer, mas quero envelhecer com satisfação. Com prazer. O que eu não quero é envelhecer a alma. Não quero deixar morrer o riso solto e o olhar sonhador. Não quero perder a leveza de viver feliz. Não quero perder a criança que há em mim, mas é preciso perder as coisas de criança.


Como disse o apóstolo Paulo: Chega um tempo em que é preciso deixar pra trás as coisas de menino.


Comentários

Mima disse…
E tu vai ficando cada vez poesia!

Postagens mais visitadas