Meu Rio Grande do Sul

"Vinte e um gramas é o peso que uma pessoa perde no momento exato de sua morte. 
É o peso carregado pelos que sobrevivem."




Que a desgraça em Santa Maria nos faça valorizar a vida!

Nenhuma linha, palavra alguma. Nada do que você possa ler aqui ou em qualquer outro lugar que trate da tragédia de Santa Maria – RS, poderá sintetizar o sofrimento, dor e pesadelo que ronda o desastroso episódio do último final de semana. Está acima da nossa compreensão de sofrer; muito além do que a maioria de nós experimentou de amargo na vida.
Em todo lugar a sucessão de erros que marcou uma madrugada numa pacata cidade nos lembra: a vida é perene. A gente não é porcaria nenhuma nesse mundo. Uma hora acaba, e tchau. Dói constatar a nossa impotência – justo a gente, justo o Homem, justo o Centro do Universo, como alguns acreditam ser...
Como somos fruto de uma Sociedade de Espetáculo, onde o sensacionalismo impera a todo instante, ainda haverá mais e mais sofrimento: passadas as fotos bárbaras que vazaram, eis que surgiram novas imagens ainda mais tristes. Já começaram a vazar as caras e histórias de jovens sonhadores que morreram, o depoimento dos pais e amigos que ficaram... E em tudo está apontado o dedo para o rosto dos culpados, aqueles que precisam pagar por isso e já são os nossos novos inimigos públicos. Tudo isso é esperado num contexto como esse.
Eu não quero entender e nem julgar nada nem ninguém. Não quero destrinchar o episódio da boate Kiss com o propósito de condenar quem quer que seja. Acho que eu só queria que a ficha caísse ou, melhor, que tudo se tratasse de um sonho ruim. Ou que a gente pudesse voltar no tempo a bordo de um Delorean incrementado, como em Hollywood, para impedir que tanta crueldade acontecesse de uma só vez. Já não basta estar vivo para sofrer?
Sem dúvida, entre tantas coisas aterrorizantes no episódio em si, pesa muito - e talvez pese mais que tudo - que tenha sido jovem a grande maioria das vítimas. Num tempo em que a apologia da juventude fala mais alto num país consideravelmente moço, onde muitas vezes há uma valorização excessiva da mocidade em detrimento da experiência dos mais velhos, é um tremendo castigo que gente de menos de 30 tenha partido tão dolorosamente.
Como personagem do cenário de entretenimento hoje, me machuca muito pensar que dessa gurizada toda, muitos podiam ter sido fãs do CQC. Deve ter uma turma ali que curtia minhas matérias e que até estavam torcendo por mim na Record. Como já fiz muito show de humor no Sul, possivelmente tinha gente ali que já me assistiu no teatro, que já riu comigo um dia, sem sequer imaginar que me faria sofrer depois. Reveillón em Jurerê Internacional, 2011. E se eu tiver dado uns beijos em alguma das meninas que morreu? Era uma festa, e eu estava feliz como aquela galera estava quando chegou na balada que seria a final. Sacanagem desgraçada que gente tão jovem tenha burlado as regras da existência humana cumprindo o ciclo antes do fim!
Por respeito a essas pessoas que sofreram e pelas que ficaram para sofrer mais, faz-se urgente a valorização da vida – da nossa e da vida alheia. Não há novidade nisso, muitos poderão dizer. Lugar-comum, opinião de outros. Logo, por que é tão difícil de aplicar na prática???
Respeito à vida, sempre. Essa tinha que ser a nossa primeira regra no exercício de viver. Se não por nós, ao menos por viver em coletividade. Em Santa Maria, muita gente morreu e muita gente agora está chorando... E há quem faça roleta-russa com uma arma para posar de machão. Ok, é a própria vida que está em jogo, não? Mas uma vida encerrada envelhece um pai, uma mãe, alguém que amava e não entendeu nada. Mais: Há os que curtem fazer racha em avenidas na madrugada. Tem sempre um idiota que topa encher a cara no sabadão pra pegar o carro em seguida e fazer besteira... Outro trouxa que fica marombando na academia para “brincar” de sair na mão com quem quer seja na noite, ou quebrar lâmpadas de neon na cara de homossexuais inocentes na Avenida Paulista. Playboy panaca que queima índio e mendigo. Imbecis que torturam e matam animais. Gente que toma todas, arrisca usar todo tipo de droga, curte viver perigosamente. Que moral pessoas assim tem agora para apontar o dedo na cara de quem quer que seja, pedindo justiça por uma enciclopédia de burradas em nome de algo que não valorizam?
Tem uma coisa também. Quem errou tem que pagar, e pagar de forma exemplar. Mas se a Justiça falhar de novo, se o Sistema for incompetente como tende a ser sempre num Brasil de incompetências, uma coisa é certa. Quem errou no caso de Santa Maria, mesmo se tiver sobrevivido à catástrofe, também já morreu. Não fisicamente, mas de todas as maneiras que uma pessoa viva pode permanecer morta em vida. Ou vocês não pensam que quem trancou as portas de emergência da Kiss, quem projetou a casa noturna, quem barrou a saída da moçada, etc, tem uma tonelada e meia de culpa quando coloca a cabeça no travesseiro? Alguém imagina como anda a consciência do cara que usou um sinalizador no palco da balada?
Enfim, ninguém vai trazer as pessoas que morreram de volta. E ninguém dimensiona o pesadelo que passou a ser a vida de quem matou, mesmo involuntariamente. São pessoas mortas, em muitos sentidos.
Por sermos donos da vida, que ainda temos e usufruímos com a felicidade que é pertinente a cada um, que saibamos viver e possamos valorizar essa dádiva. Por nós mesmos, pelos que nos amam. E por respeito a quem queria estar no nosso lugar também.

Definitivamente, nada mais precisa ser dito.

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