27.12.16

Feliz Natal!



O que diriam os pregadores da intolerância, os obreiros do justiçamento, os apóstolos do olho por olho dente por dente sobre um homem que manifestou seu amor por um ladrão condenado e lhe prometeu o paraíso? Brandiriam o velho sermonário: bandido bom é bandido morto?
Hoje quase todos os brasileiros, inclusive os cônscios moralistas da violência que amarram adolescentes em postes para linchá-los, se reuniram com suas famílias para celebrar mais uma vez o nascimento desse homem.
Sujeito, aliás, que respondeu à provocação: está com pena? Então, leva para casa! Pois, é. Jesus Cristo prometeu levar o ladrão para casa. “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”, diz o evangelho de Lucas.
Jesus optou pelos oprimidos e renegados, pelos miseráveis, leprosos, prostitutas, bandidos. Solidarizou-se com o refugo da sociedade em que viveu, contestou a ordem que os excluiu.
O Cristo bíblico foi um dos primeiros e mais inspiradores defensores dos direitos humanos e morreu por isso. Foi perseguido, supliciado e executado pelo Império Romano para servir de exemplo.
Assim como servem de exemplo os jovens que são espancados e crucificados em postes, na ilusão de que a violência se resolve com violência. Conhecemos a mensagem cristã, mas preferimos a prática romana. Somos os algozes.
Questiono-me sobre o que teria sido dele em nossa Jerusalém de justiceiros. Não sei se sobreviveria. É perigoso defender a tolerância, o amor ao próximo e o perdão quando o ódio é tão banal. Como escreveu Guimarães Rosa: “quando vier, que venha armado”.
Não é difícil imaginar por onde ele andaria. Sem dúvida, não estaria com os fariseus que conclamam a violência e fazem negócios, inclusive políticos, em seu nome.
Caminharia pelos presídios, centros de amnésia da nossa desumanidade, onde entulhamos aqueles que descartamos e queremos esquecer, os leprosos do século 21. Impediria que homossexuais fossem apedrejados, mulheres violentadas e jovens negros linchados em praça pública. Estaria com os favelados, sertanejos, sem tetos e sem terras.
Por ironia, no Natal, aqueles que defendem a redução da maioridade penal, pregam o endurecimento do sistema prisional, sonham com a pena de morte e fingem não ver os crimes praticados pelo Estado contra os pobres, recebem um condenado em suas casas.
Diante da mesa farta, espero que as ideias e a história desse homem sirvam, pelo menos, como uma provocação à reflexão. Paulo Freire dizia que amar é um ato de coragem. Deixemos então o ódio para os covardes.

Feliz Natal.

(Marcelo Freixo)


14.12.16

Textinho



Toda a minha busca por satisfação é falha se a minha vida não estiver em Cristo.
Somente Nele me encontro e ali me completo.
Todo sentido da minha vida passa pela verdade de quem sou em Cristo;
E entendo meu lugar de filho.
Ele é a luz que transcende minhas trevas e me leva a um lugar de paz.
Quero viver pra Ele e testemunhar as obras que o Seu amor faz.
Não me abstendo, quero tudo na vida com Cristo
Tanto a dor, quanto o riso.
Quero chegar ao fim da vida com certeza de que combati o bom combate.
E encontrar-me com o único mal irremediável,
Que é o destino final da minha estrada sobre a terra,
Que coloca tudo o que é vivo na mesma sala de espera:
O inevitável pesar da morte.
Sabendo que a eternidade a tudo supera.
Na verdade, não tenho aqui permanente cidade.
Sou peregrino nessa terra.
Meu lar é em outro lugar;
E é pra lá que estou caminhando.


14.11.16



"(...)

Você tem que entender
que ninguém coloca seus filhos em um barco
a menos que a água seja mais segura que a terra.
Ninguém queima suas palmas 

sob trens
embaixo de vagões
ninguém gasta dias e noites no estômago de um caminhão
se alimentando de jornais a menos que os quilômetros viajados
signifiquem algo mais do que jornada.
Ninguém rasteja por debaixo de cercas
ninguém quer receber surra
piedade.

Ninguém escolhe campos de refugiados
ou revistas íntimas em que seu
corpo fica doendo,
ou a prisão,
porque a prisão é mais segura
do que uma cidade de fogo
e um guarda de prisão
na noite
é melhor do que um caminhão
de homens que se parecem com seu pai.
Ninguém conseguiria suportar.
Ninguém conseguiria digerir.
Ninguém teria uma pele tão dura.

Os:
vão embora negros
refugiados
imigrantes sujos
requerentes de asilo
sugando nosso país até secá-lo
macacos com as mãos abertas
eles cheiram estranho
selvagens
bagunçaram o país deles e agora querem bagunçar o nosso
como as palavras,
os olhares sacanas escorrem pelas suas costas
talvez porque o golpe é mais leve
do que um membro decepado

ou as palavras são mais macias
do que catorze homens entre
as suas pernas
ou os insultos são mais fáceis de engolir
do que cascalho
do que osso
do que o corpo do seu filho em pedaços.
eu quero ir para casa
mas casa é a boca do tubarão
casa é o tambor da arma
e ninguém sairia de casa
a menos que a casa tenha te perseguido até a praia.
A menos que a casa tenha te dito
para apressar as pernas,
deixar suas roupas para trás,
rastejar pelo deserto
vagar pelos oceanos
se afogar
salvar
ter fome
pedir
esquecer o orgulho
sua sobrevivência é mais importante.

Ninguém deixa sua casa até que casa seja uma voz suada no seu ouvido
dizendo – saia
fuja de mim agora
eu não sei o que eu me tornei,
mas eu sei que qualquer lugar
é mais seguro que aqui." 


(Casa - Warsan Shire)